certa vez escrevi isso aqui sobre as canções de paulo vanzolini:

“(…) letras que, se não casassem tão bem com a música a que pertencem, poderiam tranqüilamente ser publicadas em livro sob o portentoso título de ‘antologia poética’. e é precisamente nesse ponto que reside um dos grandes paradoxos da obra de vanzolini. se por um lado seus versos são marcados por uma limpidez cristalina, concisos e enxutos, isso não faz com que soem rígidos, estáticos. pelo contrário: é o pleno domínio da forma que dá asas à poesia de suas músicas. as frases voam e se puxam; nada falta ou sobra ali.”

[depois de uma noite de sambas-canção, faço aqui uma pequenina homenagem. com um abraço especial ao velho amigo gustavão veiga e ao novo amigo joão macacão]

samba erudito
(paulo vanzolini)

andei sobre as águas
como são pedro
como santos dumont
fui aos ares sem medo
fui ao fundo do mar
como o velho picard
só pra me exibir
só pra te impressionar

fiz uma poesia
como olavo bilac
soltei filipeta
só pra te dar um cadillac
mas você nem ligou
para tanta proeza
põe um preço tão alto
na sua beleza

e então, como churchill
eu tentei outra vez
você foi demais
pra paciência do inglês
aí me curvei
ante a força dos fatos
lavei minhas mãos
como pôncio pilatos



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